'Cartas: um resquício do que fora minha vida anos atrás. Ah, os anos passados... essa ideia até me soa como uma lembrança de outras vidas que tive nesse mesmo corpo. Não sinto mais vontade de escrever cartas; e-mails, raramente. Ultimamente me tem parecido mais prático falar, ocupar conhecidos em reuniões sociais, vomitando mil e uma ideias, expectativas e principalmente...
Essa sofreguidão de vida me faz abarrotar por dentro, tentando conciliar uma avalanche de pensamentos e pouquíssimas realizações. Tudo bem, não vou nocautear todos os contentos que mantém meu equilíbrio interno. Ainda assim, a constante vivência com o que deveria fugir, me amordaça e acorrenta em situações repetitivas que mantém a dor pulsante; um vício que corroe e cria prazeres fantasiosos. Enquanto isso, o que deveria acalentar-me, cambaleia em boas intenções e mil motivos para me afastar da santa idealização para uma frustração duvidosa: enxergo errado? transfiro imagens escusas de meu castigo para a uma realidade que me parece manter vivo?
E os planos; escapatórias frustradas de uma realidade agonizante, lampejos na noite escura do meu céu de boca cortado e rico em cicatrizes labirínticas. São por fim, inúmeras tentativas de fugir; fugir do que me tem condicionado a continuar afundando nesse pântano que me muda e me paralisa em alguém que esses últimos anos me tornou.
"Esse teu sofrimento é em vão, Justine. O homem de gelo nunca terá um coração humano.", por vezes escuto essas sábias palavras de olhos forasteiros que parecem me compreender muito melhor do eu mesmo. Ainda que a veracidade de tais afirmações se tornem claras em análises repetitivas, ainda que minhas próprias observações da tosquice humana sejam claras, o gotejar do cotidiano insiste em me reprimir em quem eu não deveria ser. Morro a cada frase, me amaldiçoo em todos os momentos de recaída e prossigo tentando lutar contra o oxigênio, como se fosse possível parar de respirar.'
11 Fevereiro 2012
02 Dezembro 2011
Enquanto Houver Neve
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14 Outubro 2011
O Envolvimento Pós Vida
Me envolva em seus braços, fingindo não me conhecer; somos somente recém conhecidos nessa longa lista de passados muito bem desvendados, mas omitidos por delicadeza e polidez.
Sinta o começo de décadas atrás, quando olhares eram intensos e não rotineiros. Me abrace como se fosse a última vez nessa dupla existência momentânea e finita. Deixe que o provável aconteça, mesmo prolongando uma cronologia já finda há Eras. Resgate o que pode ser, mesmo que nunca tenha sido (as embalagens vazias já apodrecem no subsolo, enquanto tentamos identificar os novos produtos a consumir).
Os fantasmas existem, vem e vão - penam o cotidiano. Cada olhar, gesto, sorriso ou toque - de leve, quando seguro em seu braço - parece a pronunciação de mais um fantasma; como se a cada momento vivido qualquer um de nós pudesse se tornar mais uma assombração que vaga sem saber que não pertence mais a si mesmo e a essa realidade. São vultos que ainda pensam ser imagem, fotos velhas que já não ocupam porta-retratos, mas repousam a existência no fundo de qualquer gaveta periodicamente aberta pela culpa, pela covardia e pela saudade. Saudade do que nem mesmo aconteceu, misturada com um passado de morcegos e traças; vagalumes cansados que buscam um motivo para terem deixado de brilhar.
As conversas acabam em minutos, dando a impressão de vivermos um presente forçado, fingindo que o passado não existe e tentando seguir por cima de uma vida que não aconteceu. Mas porque não aconteceu?
As dúvidas balançam; esse terremoto somos nós, tentando permanecer em pé num chão que não existe.
07 Outubro 2011
Os Efeitos Colaterais
Nada mais está ao alcance do damage control; as coisas fluem desgovernadas, as pessoas vivem por si próprias e nada mais dá prazer em existência. As festas já não são dançantes, as bebidas tornaram-se amargas e os cigarros ardem a garganta. Até mesmo as curtas viagens de carro dão a angústia de 12 horas em frente ao volante; vontade de abrir a porta e saltar em movimento, perder o trem e nunca mais encontrar a próxima estação.
Os tipos, os ditos e os não ditos, os sentimentos, os olhares, o passado e seus acontecimentos; tudo dá náuseas - cansaço de viver sabendo os próximos capítulos repetitivos de uma história sem graça e frustrante. Matar personagens não é possível nessa trama, todos eles se interligam e se um deixasse de ser, todos os outros iriam por terra. Cansaço não se resume só na vivência: engloba também os sorrisos, os falsos tratos em busca de benefícios, a educação e o carinho por conveniência. Tudo cansa, em demasia.
Estou desistindo, disse tantas vezes mentalmente, alvejado em seguida pela dor da covardia no peito, dor da falta de rédeas sobre meus próprios sentimentos. Sentimentos selvagens, indomáveis. Vontade sincera seria a de afogá-los, como se afogam cavalos em estado terminal nas gaiolas de aço; afogá-los sem dó e sem medo - de que com eles, quaisquer outras partes de mim se afoguem igualmente.
06 Outubro 2011
Melagkholía
Inquietação. Sensação vaga e persistente. Mudanças constantes de comportamento, caracterizando estados de tristeza e angústia em sua maioria. Tranquilidade e prazer em curtos períodos de tempo, substituídos instantaneamente - por fatores externos ou não - por apatia e reclusão. Dificuldade em respirar e inconformidade em questões óbvias. Incompreensão de existência, resultando em lamentação reprimida. Sensação de falta ou perda de algo que não se sabe. Aflição de existir; abatimento inexplicável de origem desconhecida. Aspereza em sentimentos de finitude.
07 Setembro 2011
Teus Olhos de Ressaca
Essa ressaca violenta que vem de dentro de seus olhos, que inunda e me faz beber dessa água salgada e cruel. Ainda que sua inocência se prove na existência de sorrisos tão sinceros, vejo neles a astúcia que me desfere em realidade. Me bota a pensar invadido em dúvida, assim como a água engole a areia depois da meia-noite. O que há de ser?, até onde a fantasia faz dos abraços um mar de possibilidades?
As rédeas já não nos guiam a lugar algum. Você desde sempre foi selvagem, e agora com o ápice dos anos, explode em descontentamento ou astúcia para a próxima etapa em ser. Ser o que? Ser quem? Isso me amedronta, me entorpece em calafrios de pavor.
As rédeas já não nos guiam a lugar algum. Você desde sempre foi selvagem, e agora com o ápice dos anos, explode em descontentamento ou astúcia para a próxima etapa em ser. Ser o que? Ser quem? Isso me amedronta, me entorpece em calafrios de pavor.
"...dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles
olhos de (...). Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da
dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? (...) É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam
não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para
dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. (...) mas tão depressa buscava
as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura,
ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios." ~ Machado de Assis
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