segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

"Confusão em pacotes, embalada a vácuo"

(Fez-se necessária a repostagem desse texto.)

      Era tão fácil te ver, mas difícil ao menos de tocar. Na verdade nunca te toquei, não sei como é sentir seus olhos ou a saliva de um beijo seu. Nem mesmo saberia descrever a sensação da penugem inocente de seu corpo, assim que lhe vejo; inocente como nuvens recém formadas em tardes ensolaradas e geladas de inverno. Mas eu sei que sou patético, (...)... A diferença não é tamanha para poder haver amor, nem situações que prendem nossos cotidianos como infindáveis caminhadas sobre a neve. Sei que lhe parece difícil me compreender, mas se eu tivesse uma única chance de explicar tudo aquilo que nunca tive coragem de dizer.Destinos que podem ser mudados!, tenho certeza disso, e todos nossos antigos planos individuais agora são somente um resquício de lembranças desnecessárias que devemos esquecer. Sim, agora lembranças esquecidas que deveriam ter sido apagas. Definitivamente. Eu ainda espero, ansioso por tudo. Tudo aquilo que nos espera mesmo já tendo acontecido obviamente em minha cabeça. Futuros dão medo, passados são tão espinhosos, e o presente incrivelmente parece desconhecido. Encontrar-se no nada é complicado, tentando buscar pela luz em algum lugar dentro de quatro paredes. Se ao menos isso fosse verdade, nós dois juntos em busca de uma luz, presos dentro de um quarto escuro. Como seria o momento da descoberta? Luz acessa, você em minha frente sorrindo. Sorrindo para sempre, abraços para sempre e todas as outras baboseiras que pessoas fazem juntas para sempre. Só não decifro esse sorriso, por me ver ou simplesmente por agora não estar mais no antigo escuro, "um sorriso qualquer?"; e lá está você ainda sorrindo, sorrindo para sempre.Tudo pode parecer uma prolixidade sem fim, envolta numa cortina de sombras tentando disfarçar qualquer coisa que possa parecer real, mas não há outro modo de expressar coisas que só podem ser ditas nas entrelinhas, já que vindouros momentos talvez nunca possam vir a acontecer.

      Observação desnecessariamente óbvia: Isso deveria ser somente um bilhete de despertar, mas se tornou meu mais profundo modo de abrir o antigo e recente baú de descobertas inconvenientemente nocivas, porém necessárias.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Psicose

      Nada, nada de gênios.
      Psicose só por ser, por correr por corredores vazios fugindo de nada. Por sentar num canto da sala, contemplando o mormaço do silêncio. O sóbrio não existe, coisa do passado, tempo do conservadorismo familiar.
      Um mergulho no gim. Objetos estalam e voltando a face para não-presente, psicose. Gritar, estapear o rosto em sinal de cansaço. Observar-se no espelho, cortar a ponta do dedo.
      Todas as traças rebeladas buscam a chance de lhe comer a pele morta, o exército de ácaros o devora. O vazio da vastidão. Sozinho, nunca dormirás.

      Pêlos, pêlos, pulsam. Suam. A pele se torna escorregadia, respiração acelerada. Canais fora do ar, cigarros no cinzeiro a queimar. O cheiro, o  ar. A névoa tóxica que envolve e o faz monocromático e atônito.
      Sair pelas ruas com as mãos nos bolsos fingindo ser quem é, viver em meio a humanóides perguntando-se: "até quando? até quando?" Esperando perpetuamente os ponteiros se encontrarem.

      Fugir do meio comum, da barbárie humana do ser, das obrigações absurdamente impostas e aceitas como o normal, o esperado. Despertar no meio desse mundo com a mão nos lábios secos, arregalar os olhos. Viver intensamente sem meio nem fim, buscar o não específico sem amanhã nem momento.
      Rasgar-se, pular do abismo rumo ao centro de si. Psicose.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ser

      A lástima talvez seja a pior das derrotas. Ter o tudo sem ter nada, achar um oásis sem água. Existir no vazio. A cruel dúvida de deixar-se vencer pelo cansaço ou carregar nas costas eternamente a incerteza de um futuro azul.

      As coisas são, mas deixando de ser; a toalha que balança pendurada no varal, não balança pela ação do vento, balança sozinha pela ausência de alguém que deveria estar ali a balançá-la. Um grito de vitória não tem significado algum a quem não o escuta - tanto que a este, a vitória nem mesmo existe. Do outro lado dos pastos que costumavam ser florestas, uma formiga caminha de volta para casa. Ela não existe ao cidadão urbano que dedetiza sua casa contra um formigueiro, ainda assim seu incômodo e tragédia continuam a existir em algum lugar.

      O não senso, ou o não saber como existir e a partir de onde começar é talvez uma das outras piores derrotas. A falta de forças e o medo de voltar a viver, respirar, ser. Voltar a ser algo que não se é há muitos anos, mas o medo está aí: voltar a ser algo incerto e inseguro e complicado e vazio. A delícia está no 'ser vazio'. Complicado é não lutar por que de uma forma ou outra as coisas sempre tem seu lado negativo, negativo que engole tudo e nos deixa cheios. Cheios de pensamentos, histórias e vivências, cheios de ser, de estar e até mesmo existir.

      A ausência não explica a inexistência do ser, ou ainda nem mesmo sua presença o justifique. Esta é a contínua degradação do processo de ser sem existir.

domingo, 8 de novembro de 2009

Cafajeste

      Eu me apaixonara perdidamente por um cafajeste. Um amor merecido há eras desde quando o cafajeste não era cafajeste, e agora existia.
      Um amor a primeira vista, visto somente por mim. Mesmo assim, diante de todos nós, ele olhava compulsivamente para todas as mulheres desejáveis por quem passávamos, com um olhar de desejo e consumo profundo, como se eu não estivesse ao seu lado.
Sua cafajestagem começava por seu perfume que infestava até mesmo minhas vísceras; seus olhos verdes e boca avermelhada. Cabelo coberto por boné.
      No meio da multidão, e ao mesmo tempo sozinhos, não o compreendia - impossível compreender uma alma tão atenta e charmosa. Quando nos conhecemos, ele já usava aliança e ainda continua com ela, e sei que continuará até que a eternidade da distância durasse.
      Cheiros se misturavam. Igualmente as vozes. E eu ali - mesmo olhar, mesmo desejo e paixão. Num súbito momento, ele perguntou algo inaudível a um estranho em nossa outra extremidade. Mesmo eu estando ali, disposta a lhe conceder qualquer informação possível, disposta a compartilhar com ele minha vida e minhas entranhas. O amaria para sempre, tenho certeza disso.

      Quando eu menos esperava, num gesto brusco, ele se levantou no meio de minha paixão e de todo meu desejo de agarrar-lhe a mão em sinal de afeto, pisoteou minhas esperanças. Deixou a boca entreaberta, podendo eu ver seus dentes alvos e deliciosos. Sua língua passou lentamente pelo lábio inferior, deixando-o úmido. Assim, totalmente de frente para mim, pude ver que suas sobrancelhas eram igualmente compassadas, gêmeas em sua plenitude.
      Ele caminhou me deixando para trás em sua vida. Nem mesmo voltou o rosto para me olhar pela última vez. O ônibus parou e ele desceu, deixando o ambiente com outro cheiro. Ao meu lado, no assento vago, sentou um velho de sessenta e poucos anos totalmente bêbado.
      Nunca mais me apaixonei.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mortos Não Choram

A rápida vida de Ermelina - ou aquela velha senhora que se desconhece o nome.
Estávamos em vários, normal em um dia agitado de metrópole. Carros e pássaros, carros e pássaros piavam e voavam loucamente por aí. Era comum e esperado o momento onde as pessoas dedicariam dentro do silêncio barulhento nas vias turbulentas, para pensar suas vidas.
Para mim, tudo estava tanto quanto o céu: nublado nublado, só a luz branca atingia o topo das pessoas. Vez ou outra o brilho amarelado esgueirava entre as nuvens, mas era o sol falso de sempre. Fingindo estar, sem nem mesmo existir.
Sem nem mesmo existir.

Vozes recorrentes interrompiam pensamentos distorcidos sobre uma comparação interna com o tempo fora do trem. Interrompiam, e interrompiam e interrompiam... Uma das vozes era agradável e aceitável ao ponto de fazermos ainda acreditar em melhoras inacreditáveis.
Quantas vidas! Uma, duas, várias. Quantas. Perto de tantos destinos e estações diferentes, a minha parece nenhuma. Vazia de sentimentos como o céu branco que continua a passar pela janela, branco como um fundo infinito; talvez ele nunca volte a ser azul.
Ermelina - ou a senhora sem nome - continua sentada lá. Quietinha, mantinha a cabeça tombada na janela a olhar a paisagem do nada. Olhos imóveis que não se deixavam levar pela velocidade do mundo externo passante. Mãos juntas sobre o casaco de lã azul. Ermelina - ou a senhora sem nome - e sua rápida vida. Rápida e finda, surgida e poente diante meus olhos tão rápida como um relâmpago. Seus olhos não mais observavam o mundo passante, simplesmente mergulharam no repouso; só haviam se esquecido de partir.
Olhos secos, opostos aos meus que lançavam pensamentos em forma líquida. Corpo inerte em movimento; movia-se rapidamente sobre trilhos sem ao menos ter vida. Olhos abertos em busca do restante de uma vida que já acabou. Meu eu se rasgava em dor. Facas perfuravam meu peito.
Mas porque tanta lástima? Mortos não choram.

A Amanda Braz que inspirou o título.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Em Seu Lugar *

O que confusão tem haver com tudo isso? Porque estar confuso vem a passos largos em direção ao centro do meu cotidiano? Ser como sou é a confusão em si, ou vem a ser um estar, devido a eventos aleatórios que se agrupam no subconsciente?
Consequências de tantos atos vividos como se fossem ótimos e perfeitos e livres de dúvidas e indiferenças; então quando se nota, todas as pilhas de acontecimentos sobrepostos desabam. Eslamaceiam o carpete da sala de estar.
A dormência faz com que velhos e fundamentais hábitos deixem de acontecer, percepções ficam engavetadas; tudo está perfeito! Relativamente.
Então, a confusão não vem a ser somente o estado de dúvida e negligência interna na assimilação de pensamentos, decisões e informações. Confundir-se e deixar-se levar por si próprio ou pelos outros, é perder-se ao meio das prateleiras de arquivos mortos, tragar a poeira da vida dos outros até que brote a indiferença em seus próprios pulmões. Respirar e ver crescer dia a dia, coisas que conscientemente você não deixaria estar lá. É olhar fotos de pessoas que você nunca viu nem escutou a voz, talvez alguém que você nem conheça, e sentir falta de um abraço e de um sorriso que nunca aconteceu.

Vagando por becos escuros de concreto recém molhado, escutar canos chiarem e se sentir em casa.

Confusão é um pouco de loucura; sentir o que não está lá e não sentir o que está. Permitir que seu mais profundo senso de percepção se engane com uma imagem latente, pulsante. Pulsa, a confusão pulsa. Pulsa até que revele ao resto do corpo que ela está lá.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Flows like a River


That's right. A vida sempre fluirá como um rio. Por mais que tentemos parar tudo, mesmo que por um instante, ainda assim a correnteza continuará a levar o barquinho de papel.
Não é possível fazer a mesma água passar duas vezes pela mesma ponte, não é o que dizem?
Muitas vezes não há tempo para lamentos. Enquanto isso, sua vida acontece e você não fez parte dela.

É melhor se apressar, "something is happening somewhere".

sábado, 22 de agosto de 2009

Carta a Terra

22 de Dectanon de 2527

Amigos do planeta Terra,
Espero que esta carta lhes encontre na melhor das situações possíveis, diante muitos dos horrores que acontecem diariamente em vossas nações.
Sinto-me feliz em poder finalmente escrever-lhes, de alguma forma poder finalmente entrar em contato com seres muitas vezes tão bondosos e guiados por suas emoções. Desde meu nascimento aqui em meu planeta, aprendi tudo sobre vosso planeta, com tantos recursos naturais e espécies de seres vivos. Aqui, comparados ao de vosso lar, possuímos somente 50% dos recursos naturais. E as cadeias alimentares são muitíssimo menores.
        Aprendemos muito também sobre vossa espécie; como vivem, como tratam seus semelhantes e as outras espécies com quem dividem o planeta. Como funcionam seus corpos; que infelizmente ingerem muitas substâncias nocivas a saúde, e como usam somente 10% de seus cérebros.
Apesar de tudo, sempre tive certeza que aquele momento há cerca de três anos, onde finalmente vocês estavam prontos para saber da existência de outras formas de vida inteligente, chegaria e sempre acreditei que uma hora, seres tão bons e plenos como a essência inicial de todos vocês, uma hora vocês estariam prontos para começar vosso plano de evolução mental, e passariam a ser mais cientes de tudo, que vossos olhos fossem descobertos a todas as coisas dentro de vosso sistema solar e dentro de vossa casa feita de água, um planeta que sempre impressionou a todos que o veem, um planeta tão azul...
        Agora, depois de tantos milhares de anos em que algumas espécies de vossa raça foram deixadas nesse planeta, devido uma guerra que infelizmente teve de acontecer na Via Láctea, mas que felizmente se findou há muitíssimo tempo, quando finalmente então se estabeleceu a paz.
        Sim, agora espero que aqui, como em muitos outros planetas, seja ensinado as nossas crianças como os seres auto intitulados humanos, puderam perceber o que acontecia debaixo do tapete de sua casa. Como deviam cuidar plenamente de seus corpos, podendo viver muito mais mesmo tendo que continuar a respirar oxigênio, o que causa a degradação das células com o tempo; como devem respeitar e amar qualquer outro ser vivo tanto de seu planeta como de qualquer canto do espaço sideral, respeitar toda forma de vida que anda sobre a Terra, não a matando nem a comendo, pois por si próprios em suas cadeias alimentares e ecossistemas, eles se auto sustém; como também está claro diante vossos olhos que todas as armas de todos os tipos devem ser destruídas, já que vocês passam a compreender que o amor é o único caminho para tratarem uns aos outros sem exceção, onde a partir daí muitos problemas se findam. Sempre, todos vão se ajudar, independente de qualquer coisa, o que extinguirá a pobreza de vosso planeta.
        E que agora, depois de muitos anos procurando a cura de muitas doenças, vocês podem perceber que era devido ao que vocês próprios fizeram com seus ecossistemas, vossa água, vossa terra e vossa atmosfera. Mesmo com tantos danos causados a um planeta que só lhes tinha coisas boas a oferecer, vocês finalmente podem começar a recuperá-lo mesmo com tanto danos causados.
        Fico muito feliz, que depois de tantos milhares de anos, agora é incrivelmente real diante vossas mentes que é preciso uma mudança da parte de cada um de vocês, milhões de seres inteligentes, que um dia já foram bilhões sobre a superfície terrestre, mas onde muitos não suportavam viver em um mundo de guerras, injustiças, mesquinhez, angústia e sofrimento.
        Agora, todos vocês, remanescentes de uma raça tão impressionável, percebem que embora únicos em vosso planeta, com tanta capacidade de cada uma de suas mentes inteligentes serem capazes de mudar muitas coisas em vossa morada, mas que também como um só povo global, devem se unir como irmãos de uma única família, moradores de uma única casa, vossa 'Terra'.
        Fico feliz em poder finalmente expressar toda minha empatia por vossa raça, descendentes de nós, vossos irmãos de uma constelação pouco distante.
Que todos vocês possam finalmente passar ao próximo plano mental. Nossa nação há muitos séculos, esperava que esse momento lhes chegasse, o que nos deixa muito feliz.

Lhes congratulo e lhes envio meus melhores sentimentos,

Wfehufahi Efoeji.


PS: Esta é uma carta (obviamente fictícia), escrita por mim, mostrando um pouco de tudo que eu sinto que os seres humanos devem escutar um dia. Espero que tudo isso realmente aconteça, e muito antes do ano em que a carta está datada.